O vadio e o mar
Era um fim de tarde frio e chuvoso. A coroa vermelha escondia-se atrás de algumas montanhas e assim a lua tomava o seu lugar. Era um vilarejo encantador, onde muitos tipos diferentes de pessoas costumavam transitar. Uma pequena taverna tinha suas luzes acesas de modo a mostrar-se aconchegante. Dentro do recinto vários tipos personalidades chocavam-se, seja em brigas ou na bebedeira: Piratas, ferreiros, palhaços e crianças. Ah! As crianças... Esses seres cheios de curiosidade, loucos para obter informações sobre a vida. Um grupo delas, de 5 ou 6, estavam sentadas em volta de um homem estranho. Era o velho John, um homem de cabelos grisalhos, que aparenta ter uns 60 anos embora ainda ostentasse um excelente físico. Seus olhos negros em contraste com sua roupa branca manchada em alguns pontos... Era um perfeito exemplo de um vadio. As crianças não paravam de aporrinha-lo em busca de alguma história nova.
-Ou John! Conte-nos aquela em que você pescou 5 tubarões sem anzol algum! – Dizia uma das crianças – Prefiro aquela em que você passou 5 dias navegando nas costas de um golfinho! – Fala uma menina banguela.
Com calma, o vadio responde:
-Não... Hoje não contarei mentiras, afinal é uma data muito importante para mim!
Um garoto que antes tirava melecas do nariz, viajando em pensamentos parecia agora estar interessado:
-Dia importante? Hoje é feriado?
-Não. – Respondia com calma John.
-Seu aniversário?
-Não...
-Aniversário de alguma aventura? – O garoto arriscava sua ultima ficha. Parecia que finalmente ele havia acertado, pois John sorria amarelo para os meninos a sua volta.
-Quase isso... Hoje comemoro 40 anos que me encontrei com o rei dos mares, o senhor das águas, Poseidon.
-Olha ele! Já está mentindo??
-Os moradores da vila me chamam de louco por contar essa história, porém garanto pelo meu sangue, que não há mentira alguma!
-Conta tio... – Pediam as crianças.
O velho John toma um gole de seu grande copo de cerveja e põe-se a falar de modo saudoso e altivo.
-Bem, aconteceu a 40 anos atrás... – Começou o vadio - ...Eu ainda era um jovem e pretensioso pescador quando os primeiros rumores vinham dos mares do norte. Alguns viajantes afirmavam que em um ponto do oceano, muitas embarcações sumiam de modo misterioso, levando consigo a vida de seus tripulantes. As pessoas morriam de medo, porém eu me sentia tentado a comprovar com meus próprios olhos a verdade dessa história. Em um dia chuvoso e igual a esse, aprontei a embarcação de papai, peguei meu material de pesca e pus-me a navegar pelo mar arredio. Durante alguns dias viajei entre a vida e a morte, pois controlar aquele navio sozinho me custava muito esforço.
O velho sacode sua cabeleira grisalha enquanto bebia outro gole de sua espumante cerveja, logo continuando:
-Meus ossos estavam congelados e finalmente cheguei a beira da inconsciência até que em um momento comecei a escutar uma música suave que enchia meus ouvidos de esperança e felicidade. Meu humor e minha força de vontade se revigoraram e assim pus-me a cantar com força algumas músicas do mar. Eu estava chegando em meu destino... A localização exata era aquela. Desci a âncora e sentei-me encostado ao mastro a espera que algo mordesse minha isca... Eu gritava a plenos pulmões “Vamos! Me levem como levaram tantos outros!”, mais nada acontecera... Até aquele momento. Subitamente comecei a escutar novamente a mesma música que me salvara, só que agora muito mais próxima. Eu me aproximava da beirada do navio e já me içava por cima dela, de modo a ficar em pé entre o mar rebelde e meu barco.
-Sereianos! – Gritara um garoto miudinho que parecia estar adorando a história
-Sim meu jovem... Mesmo enfeitiçado com aquela melodia, ainda pude ver nitidamente algumas delas sorrindo para mim. Adivinhem o que fiz? Joguei-me no mar...Em direção as belas mulheres de cabelos loiros e de vozes encantadoras que brincavam com a linha de minha vara.
-OH! – Exclamaram os meninos em uníssono.
-Sim, eu pensei que me afogaria, pois elas me puxavam para baixo com uma força assombrosa. Eu não conseguia me mover e continauva a entrar de mar a dentro, em direção a escuridão. Apaguei. Quando voltei a mim, estava deitado em uma cama de feno olhando a alguns metros de distância a água pairando como um teto. Ela não caía...Muito estranho. Pus-me a andar pelos ambientes e descobri que aquilo só podia ser a morada dos seres aquáticos denominados Sereianos. Os templos gregos, os pilares e as estátuas...Tudo era real. Algumas sereias passavam por mim. Elas não tinham mais escamas como nadadeiras, e sim pés humanos. Fui levado a presença de um imponente senhor de barba branca, cujo tridente repousava am sua mão firme. Elas o chamavam de Poseidon. Muitas vezes conversamos e assim o tempo passava...
-Por quanto tempo você ficou entre eles? – Perguntou uma garotinha chupando um pirulito de coração.
-Dias, semanas, meses, anos...Não sei ao certo. O que sei é que todos os dias eu era levado a presença daquele homem incrível. Ele parecia ter todos os conhecimentos do universo... Me mostrava o passado, presente e futuro. Induziu-me até a casar-me com sua filha mais nova, uma sereiana loura dos olhos azuis e corpo nu escultural. Os preparativos da cerimônia já haviam se iniciado quando soaram todas as conchas do templo.
-O que aconteceu?
-Vários sereianos armados até os dentes se dirigiam para a beira do abismo onde parecia, seria travada uma batalha contra outra civilização. Eu queria lutar, porém fui deixado de lado. Poseidon armou-se para batalha, porém antes de ir par ao campo concedeu-me algumas graças e ai tudo ficou negro.
-O que aconteceu? Que graças seriam essas? – Perguntavam os garotos eufóricos.
- Acordei na beira da praia de minha vila, essa vila, e contei aos meus pais sobre minha viajem. Ambos não sabiam de minha ausência e juravam ter me visto sair pela manhã daquele dia. Mais eu não queria acreditar que aquilo fora tudo um sonho... Durante alguns anos eu sempre voltei ao mesmo local na esperança que aqueles seres maravilhoso me levassem novamente, porém nada aconteceu... Continuei aqui nesse lugar patético, bebendo e comendo feito um porco.
As crianças estavam de bocas abertas como se ainda tentassem digerir toda a narrativa.
-E essa é minha história...A história de um homem que vivia monotonamente, encontrou uma razão para viver e lutar, encontrou o amor, porém acabou privado de sua felicidade e até hoje é chamado Vadio.
Barulho de cadeiras arrastadas no piso de madeira. As crianças punham-se a levantar-se deixando o velho sozinho com sua caneca. Ele ainda podia escutar uma delas dizendo:
-Não acredito que passei todo esse tempo escutando uam mentira tão deslavada... Conhecer sereias? Poseidon? Casamento? Quem é o estúpido que acredita nisso?!
O vadio então se levantara, jogando algumas moedas para o barman. Andando na chuva até a beira da praia, John fala baixinho:
-É senhor...Parece que nenhuma delas são dignas de conhecer sua morada...Esperemos então a próxima geração.
E então adentrou nas águas bravas. Seus pés eram agora nadadeiras escamosas que moviam-se com graça. Em um mergulho o homem descera para nunca mais ser visto por ninguém, deixando essa história ser difundida como uma mentira. Uma história de pescador.
By Anárion