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A criatura do Baya Malay Esse é o ducado de Caíja, cercado ao sul e a oeste pelas frias montanhas de Baya Malay, a norte e leste pela floresta de carvalho, no presente momento coberta pela neve recente de inverno. Há apenas uma estrada numa garganta entre as montanhas ligando a cidadezinha com o exterior. Numa choupana, na periferia do lugarejo, um casal conversa em volta da fogueira, a mulher está grávida e se chama Gris, é vista debruçada sob uma escrivaninha, o homem, Glauco,.encontra-se no celeiro, tirando os grãos da colheita que servirão para a próxima plantação primaveral. Exausto, Glauco entra novamente em casa e sente uma confortável queda de temperatura. - Terminei. - Diz Gris. - Terminou o quê querida? - Pergunta Glauco. - Os manuscritos que estava passando a limpo, o velho Ciano me encomendou esse trabalho a um mês, finalmente terminei, ele me pagará 100 mil berries por isso. - Esplêndido! Teremos dinheiro para terminar de construir o quarto do bebê! - Receio que não meu marido, o velho monge só passará aqui em três meses, você sabe, o monastério em que ele vive é muito longe, não pode vir aqui com tanta freqüência. - Mas querida, o médico disse que o bebê virá em um mês, não teremos onde colocá-lo! - Poderá dormir com a gente... - Sem chance, onde estão esses escritos, vou levá-los ao velho. - Na montanha? - Sim, vou subir a montanha até o monastério, é um dia de caminhada, mas eu consigo. Assim teremos o dinheiro para terminar o quarto e o berço pro neném. - Oh querido... E assim Glauco parte para a montanha Baya Malay, mal sabe o pobre fazendeiro o destino que o aguarda. Parece uma ótima ocasião para a partida, mas logo que o caminho se torna longo demais para retornar, uma forte nevasca debruça-se ao longo do trajeto. A neve cobre ervas, arbustos e musgos, últimos resquícios da tundra que houvera, mas mais do que isso, Glauco não consegue enxergar seu caminho. Pensa na comida, a marmita só daria para um dia, então decide continuar andando mesmo que às cegas. Está sozinho num lugar inóspito, e se acha perdido, continua andando por um longo tempo até desmaiar tremendo de frio e exausto. Quando acorda, seus membros estão congelados e suas mandíbulas doem de tão faminto que está. A comida estocada já tinha sido consumida num dia anterior, Glauco não pode precisar a quanto tempo atrás. Ele tenta andar com todas as forças, sabe que ficar parado piorará tanto o frio como a fome, vai cambaleando delirante por alguns metros, quando avista uma toca cavada no solo, entra por ela se arrastando, pois a entrada era estreita, dentro estava tudo escuro e não dava para ver muito bem. Glauco descobre o que pareciam ser marmotas naquela entrada, come as criaturinhas de modo visceral, morreria de fome se não o fizesse, naquele momento era um animal, ou um homem, reduzido ao tempo das cavernas. Depois do que Glauco pensa ser um dia, ele consegue chegar à estrada, sua pele está rasgada com o frio e ele sofre com hipotermia profunda, desmaia novamente, no meio da estrada e beirando a morte. Acorda ainda tremendo, mas não apenas por seu estado, está em movimento numa carruagem, dormira no coche. Ao seu lado está o nobre Duque de Caíja, eles se conheciam, Glauco já havia trabalhado para ele. - Então, acordou Glauco? Pergunta o Duque retoricamente. - Senhor, você me salvou! Diz Glauco, beijando a mão adornada de anéis do nobre. - O que queria que fizesse? Mas agora... Você precisa de tratamento. - O... Onde me encontrou? - Você estava na estrada, muito distante de meu ducado, o que há com você? Estava tentando se matar? - Me leve para casa, por favor, senhor. - Não. - Não? Diz Glauco desesperado. - AAAAAAAARRRRRRRRRRRRRRRRRRGHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH Nesse momento ouve-se um grito gutural vindo das montanhas, algo hediondo que vivia ali, a que Glauco dá graças por não estar mais no gelo. - O que foi isso? Fala Glauco novamente, não concebendo que o dono daquele grito pudesse existir. - Aff! Na certa algum bicho, você está perturbado mentalmente também, precisa de tratamento urgente, vou levá-lo ao monastério, estamos próximos, o velho Ciano cuidará de você. - Ah, ótimo! Faça isso! Diz Glauco, lembrando-se da missão de entregar o manuscrito, dorme pouco tempo depois. Recobra a consciência já num leito do monastério, coberto por uma manta grossa, uma compressa embebida em água quente na testa e um termômetro na boca. O tão falado velho Ciano olhava fixamente para ele. Era um homem velho e careca, usava batina - Oh meu filho, que destino horrível para alguém que resolve dar uma caminhada. Diz o monge Ciano num tom de idoso. - Você é o velho Ciano? Diz Glauco apreensivo. - Velho? Quem disse que sou velho? Hahahahaha... - Sou Glauco, esposo de Gris. Estava vindo até a montanha, vinha entregá-lo uns manuscritos mandados por ela. - Tão cedo e já terminou? Que garota caprichosa não? Sinto muito por ser a causa desse seu sofrimento, mesmo que sem intenção. Como está o bebê? - Ainda não nasceu. - Ah, disso eu sei, mas... - Um sino badala no pátio e ressoa por toda a construção. - Está na hora de nossa oração, durma mais um pouco sim. - Diz o monge. O velho sai e deixa Glauco sozinho no que agora nota, pequeno quarto, nele além da cama havia uma pequena escrivaninha e um espelho, oposto à janela que ficava do lado da cama. Glauco observa seu reflexo, queria ver o quão ruim sua saúde aparentava, olha bastante achando ter alguma coisa estranha na imagem do espelho, não sabe dizer ao certo o que é, mas lhe dá calafrios. É quando percebe que há olhos, olhos vermelhos e sedentos, aparecendo no reflexo, mas que estavam atrás dele, no canto da janela. Fica paralisado, o mal estar transforma-se em medo É uma criatura horrenda, a mandíbula deslocada para trás e destacando a arcada de cima, pelos crescem por todo o corpo e tem uma expressão de ódio no olhos. A aberração não para de olhá-lo, Glauco também não consegue se mover nem desviar a vista. Toma coragem e vira rapidamente a cabeça para trás, está pronto para a morte, espera que o monstro pule em cima dele ou algo assim, mas quando se vira, não há mais nada. Ao perder aquela coisa de vista, Glauco corre de perto da janela. Abre a porta do quarto e depara-se com uma longa escada em espiral, só há caminho para baixo. Ele desce correndo e chega num corredor com muitos quartos, todo o lugar é cheio de penumbras, o corredor amedronta por mostrar apenas a escuridão, em vez do que há no final. A passos largos pelo corredor, chega num templo onde muitos monges rezavam ajoelhados. Velas com fogo relativamente alto projetam gigantes de sombra na parede. Ciano se revela entre os homens religiosos e anda até Glauco. - O que está fazendo aqui? Mandei descansar! - Diz o monge, num tom irado. - Desculpe, havia... Algo em minha janela - Responde Glauco, constrangido. - Como o quê? Traças? - Maior! Olhos... Vermelhos, e dentes pra fora! - Ah meu deus! - Ciano parecia assustado. - Venha comigo! O velho puxa Glauco pelo pulso até uma pequena estante de livros, longe dos oradores. Retira um grande livro e começa a folheá-lo, a procura de algo. - Assim? - Mostra a pintura de uma besta, tal qual a visão no espelho. - SIM, ERA ASSIM! - Grita o fazendeiro, aflito. - Cale a boca, não grite! Está num lugar sagrado! - O que é esse monstro? - Diz, acalmando-se. - É o Rubro, uma entidade das montanhas. Nem boa nem má, selvagem, apenas isso. - E como nos livramos dele? - Livrar? Hahahaha, você não se livra de um Rubro, no máximo ele se livra de você. - Gulp. - Engole seco. - Não gosto desse lugar, vou embora ao amanhecer. Antes que o inverno se aprofunde mais. Glauco, recuperado e com seus 100.000 berries, se põe novamente na estrada. Vai descendo a montanha, dessa vez não erra o caminho, aprendera sua lição. Era dia, com a luz do sol, pensava ele, nem o Rubro podia amedrontá-lo. Ele estava chegando, isso era bom, já podia ver as luzes do ducado acesas, mas por outro lado, a noite começa a chegar. A lembrança do encontro de ontem com a criatura o persegue, e à medida que a noite avança, fica mais constante. Apressa o passo, não entende por que, mas o medo gradativamente toma conta dele. Seu coração salta quando pensa ver algo entre os rochedos. Continua seu caminho, vê de novo um vulto, e dessa vez inconfundivelmente: um Rubro! Corre desesperadamente em direção a cidade, e logo consegue enxergar sua casa. - AAAAAAAAAAARRRRRRRRGGHHHHHHH! - Glauco ouve novamente o berro gutural que soara quando estava na carruagem do duque, mas dessa vez vinha de sua casa, agora tem quase certeza que um Rubro era o dono da voz, continua correndo, então pensa: "MINHA ESPOSA ESTÁ LÁ!" - AAAAAAAAAAAAAAAAAAH! - Como se adivinhasse, ouve o grito delicado da esposa, lágrimas escorrem pela face de Glauco que corre desesperadamente em socorro da amada. Ele entra em casa e chega até Gris, ela está sangrando no chão, há uma ferida grande na barriga, ele a abraça forte. Olhando em volta Glauco percebe a janela batendo repetidamente contra a parede, isso por que no momento ventava muito. A janela não costuma ficar aberta, a criatura certamente tinha fugido por ali. Sua esposa continua sangrando, tinha olhos úmidos e arregalados como quem vira a morte de perto. Glauco se apieda e olha para ela incapaz de fazer alguma coisa. - ELE DISSE... AQUELA COISA DISSE... QUE IA LEVAR NOSSO FILHO... EM LUGAR DO SEU QUE FORA DEVORADO!!! - Diz Gris, chorando e gritando de dor. FIM |