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| QUÍMICA E ALQUIMIA Diamantino Fernandes Trindade Mestre em Ciências pela City University Los Angeles Professor de História da Ciência e Ensino e Divulgação da Ciência do CEFET-SP Lais dos Santos Pinto Trindade Mestranda em Educação/ Professora de Química das Escolas Anchieta O objetivo deste ensaio é apresentar uma visão abrangente da Alquimia, suas origens, a pedra filosofal e, também, os seus tênues vínculos com a Química, mostrando que o alquimista visa à compreensão e o químico visa à perfeição. É freqüente encontrarmos autores de livros de Química argumentando ser essa Ciência oriunda da Alquimia. Ora, é sobejamente sabido, por todos aqueles que se dedicam à pesquisa histórica, que de modo algum essa suposição pode ser suportada pelos fatos. Isto é, no máximo, apenas uma parte da verdade, já que muitos alquimistas também descobriram novas substâncias e desenvolveram procedimentos experimentais utilizados posteriormente pela Química. Mas há na Alquimia uma sabedoria que não se encontra na Química. Elas diferem, portanto, nas suas concepções e objetivos. A palavra Alquimia, do árabe Al-Kemi ou do grego Chemeia, tem o mesmo significado: Química. Na China, Kim-Mai, do dialeto cantonês, significando algo como "o segredo"; ou ainda, do dialeto de Fukien, Chim-I, extrato para fazer ouro. O nome do Egito, em hieroglífico é Kemi (negro), isto é, a matéria original da transmutação, passível de ser convertida em ouro. A Alquimia é uma Química transcendental e há entre as duas a mesma relação que existe entre a Astrologia e a Astronomia, e a mesma diferença: uma é de caráter nitidamente espiritualista e a outra, friamente materialista. A Alquimia afirma que todos os corpos derivam de uma matéria única e primordial, animada por uma vida única e universal, ambas, matéria e vida, manifestações polarizadas da Divindade Abstrata e Absoluta. Esta Ciência transcendental tem como método a certeza de que a perseverança e a fé, aliada ao estudo detalhado dos textos dos antepassados que lograram sucesso (isto é, o dom de Deus), acabariam por lhes dar o conhecimento impregnado de uma carga mística muito profunda. Na obra Da Alquimia à Química, de Alfonso-Goldfarb, encontramos o seguinte: ‘Trata-se, portanto, de uma cosmologia, ou uma forma de conhecimento do mundo. A matéria era interpretada através da ritualística mágica, entregando ao alquimista segredos do cosmo que o levariam ao conhecimento de si próprios". Tal conhecimento não era apenas a possibilidade de saber das causas de todas as coisas, mas de compartilhar o SER de CADA coisa. Além disso, esse dom implicava a regeneração do corpo físico e na sua transmutação em algo perfeito e necessariamente imortal. Quanto às propriedades da transmutação metálica, possuídas pela Pedra Filosofal, seriam apenas acréscimos, e não o fim último. Alguns escreveram que a Alquimia é produto de séculos de ignorância, mas é exatamente o contrário: naqueles séculos de ignorância ela foi a Luz valente e atrevida que com o passar do tempo resultou no florescimento da atual Ciência, como um ramo daquela imensa árvore. Sua desarticulação não surgiu de suas contradições internas, mas ocorreu no contexto do sistema objetivo do pensamento nascido com a Ciência Moderna. A Alquimia se recusou a partilhar do dogma modernista que desvinculou o sujeito e o objeto. O alquimista é um perseguidor da perfeição em todos os reinos da natureza. É o agente do Criador para o aperfeiçoamento de sua obra. Já o químico busca uma compreensão de processos, um registro claro e universalmente conhecido dos mesmos. A perfeição, mais ainda, a mania de perfeição que os bons químicos costumam estabelecer como parâmetro de trabalho em nada se assemelha à buscada pelo alquimista. O químico visa à precisão; o alquimista, à compreensão. O alquimista era também o astrólogo, médico e filósofo, de modo que reunia, como ainda reúne, o máximo do conhecimento de sua época. Esse conhecimento, combatido sem trégua pelo fanatismo religioso romano que considerava satânico todo o saber, passou a ser transmitido pelo mestre a alguns discípulos que eram iniciados em sua "Arte". Vejamos o que nos diz Arnold Waldstein em sua obra Os segredos da Alquimia: "O homem moderno, e em especial o cientista moderno, demasiadas vezes paralisado pelas ilusões da física nuclear, mostra uma tendência excessiva para considerar os alquimistas com comiseração, como os "homens das cavernas" da ciência atual, a qual se encontraria na senda da verdade e do progresso. Ora, quando o homem moderno, mergulhou nos abismos da "civilização moderna", e vê o alquimista como um sonhador perdido nas suas poções mágicas e nas suas receitas cabalísticas, ele não faz mais do que sucumbir a uma ilusão, pois, com efeito, o alquimista, quer ele fosse da Idade Média, quer fosse do Renascimento (as idades de ouro da Alquimia, pelo menos entre as historicamente conhecidas), superava o Tempo e possuía em germe nas suas retortas toda a decomposição plutônica do mundo moderno que agora o julga. Assim, podemos considerar a química moderna, um desvio da Alquimia". Ficaria melhor estabelecer como antecessora natural da Química aquela arte praticada pelos insufladores e conhecida como aLquimia. É importante ressaltar que o objetivo destes artesãos resumia-se à obtenção do ouro por processos de transmutação de metais menos nobres. Alguns mais afoitos chegavam mesmo a obter falsificações que podiam resistir aos exames dos ourives da época. As anotações dos métodos e a linguagem neles adotadas buscavam uma certa similaridade, de modo a evitar que outros usassem processos falhos reiteradamente. Aí encontramos algumas evidências de uma postura semelhante à do químico atual. Os textos alquímicos são escritos numa linguagem não-convencional, chamada linguagem-de-pássaros que visa interditar o conhecimento aos mais afoitos e ineptos. Vários foram os alquimistas que contribuíram para o desenvolvimento dessa Arte, como Demócrito iniciado nos Templos de Memphis, discípulo de Leucipo, que enunciou a base da Teoria Atômica, além de Newton, Berthelot, Crookes, Rochas, Mendeleiev, e outros. Não poderíamos deixar de citar aquele que mais se destacou no estudo da IATROQUÍMICA, a Química destinada à cura. Estamos falando de Theophrastus Bombast Hohenhein, Paracelso. Era partidário da doutrina dos quatro elementos (Terra, Água, Fogo e Ar). Acreditava que esses quatro elementos apareciam nos corpos sob a forma dos três princípios: sal, enxofre e mercúrio. O sal como princípio da fixidez e incombustibilidade; o enxofre, da combustibilidade e o mercúrio, da flexibilidade e volatilidade. Comparou esta "Tria Prima" a outro ternário sobejamente conhecido: corpo, alma e espírito. Paracelso preconizou uma nova terapêutica das doenças baseada no princípio de que o ser humano era formado por elementos básicos cujo desequilíbrio provoca todas as doenças. A seguir, mostraremos a célebre Tábua de Esmeralda de Hermes, o Trimegisto. É a pedra angular e a síntese da Magia numa única página: "É real, sem mentira, certo e muito verdadeiro. O que está embaixo é como o que está acima, e o que está em cima é como o que está embaixo, para cumprir o milagre de algo Uno. E assim, como todas as coisas saíram de uma coisa única, pela Vontade do Uno, assim todas as coisas nasceram desta única coisa por adaptação. Seu pai é o Sol, sua Mãe é a Lua, o vento o carregou em seu ventre, a Terra é sua ama. Aí está o Pai da Perfeição do Universo. Seu poder sobre a Terra não tem limites. Separarás a terra do fogo, o sutil do grosseiro com amor, compreensão e discernimento. Ela sobe da Terra para o céu e em seguida volta à Terra e recolhe a força das coisas superiores e inferiores. Desse modo, terás a glória do mundo, por isso, toda incompreensão se afastará de ti. Serás a força forte de todas as forças, porque vencerá as coisas sutis e penetrará em todas as coisas sólidas. Assim foi criado o mundo e é a fonte de maravilhosas adaptações. Por isso sou chamado Hermes Trimegisto, aquele que possui as três partes da Sabedoria Universal. O que eu disse sobre o trabalho do Sol está cumprido." A Pedra Filosofal – O Ouro dos Alquimistas Os textos alquímicos são permeados pelos processos da transformação, quase sempre representados pela transmutação do chumbo em ouro, sugerindo também a passagem da ignorância, tida como fonte das trevas, para a Sabedoria, associada à luz solar, à perfeição, ou ainda ao brilho do ouro. Assim, a finalidade aparente da Alquimia é a fabricação do ouro, mas a Arte Alquímica consiste em despertar o sentido das analogias; é a ponte de ouro que une o microcosmo ao macrocosmo, ligada, por conseqüência, ao fenômeno da iluminação – o visível como reflexo do invisível. A Alquimia é a arte de alcançar a perfeição, que para o metal ou a matéria é o ouro e, para o homem, a longevidade, depois a imortalidade e, por fim, a redenção. A obtenção da Pedra Filosofal, do ouro alquímico, corresponde à grande transformação interior, é atingir o aperfeiçoamento, o autoconhecimento. A via para conseguir tais objetivos é a Alquimia redentora e que significa o perfeito equilíbrio dos sentimentos, das ações e dos pensamentos. Os que já lograram tal intento são aqueles que vivenciam o "eles" em lugar do "nós" e do "eu". Para esses, a verdadeira família é a comunidade planetária, a verdadeira pátria que é o Planeta Terra. TODOS NÓS PODEMOS SER VERDADEIROS ALQUIMISTAS. |